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Eu vi caminhos escuros por onde passei. Eu percebi a fúria de algumas pessoas quando passava calada. Percebi também olhos assustados ao redor, com fúria e angústia dentro deles. Vi janelas se fecharem enquanto procurava uma luz, ou qualquer resquício de luz que brotasse, por desesperançoso que seja. E enquanto caminhava um tanto perdida por tantas pessoas desconhecidas, não pensava em nada mais que um rosto bonito para me trazer um sorriso.

Foram dias e dias assim: sem rumo, sem prumo, sem sorrisos. Não havia comida ou água que me satisfizesse  por dentro ou por fora. Não havia música alguma que me fizesse dançar, palpitar, correr, saltitar, andar, pular... Por onde andava, em sonhos ou acordada, só sentia e enxergava solidão, angústia. Um medo que corria comigo por onde fosse. Um medo bem ruim que entranhava-se e ligava-se no meu peito como um cravo de espinhos. E assim foi: um dia, outro dia, o dia seguinte, o dia próximo. 

As ruas estavam caídas e com pessoas caídas. Sei que estava apenas de passagem, e eles também sabiam disso. Perceberam meu caderninho surrado que trazia debaixo dos braços. Devia ser por esse detalhe que corriam de mim. Ou corriam com medo que eu pudesse escrever sobre eles. Sobre os pedaços que encontrei deles. Das lágrimas que ouvi e senti enquanto passava, vagarosamente. Mas sentir me fez mais forte e por isso demorei tempo demasiado ali. Só não deixei de caminhar pois um disfarce cabia muito bem ali. E eu precisava disfarçar caso quisesse escrever.

Meu caminhar era pacífico. Não queria brigar com meus próprios pés pois o cansaço dos murmurinhos que ouvia e sentia eram tão pesadamente fortes, que com os dias comecei a me arrastar. Realmente não queria meus pés reclamando. E devia ser por isso que, quando cheguei em meu repouso, percebi algumas folhas escritas bem sujas e surradas. Mas posso dizer que estavam doendo e percebi isso apenas depois que acordei.

Alguns dias depois, andando e circulando pelo mesmo lugar, percebi que ali estava cheio demais de pessoas. Cheio e transbordava de rostos desconhecidos, de corações carentes e tristes como o meu e que talvez, eu pudesse soltar minha solidão ali para brindar com as outras. Talvez. E com esse talvez sorri. Sorri com o momento de segundos que ouvi alguém abrindo uma janela, para entrar um ar em sua vida. Um ar em minha vida. Um fôlego de vida em meu coração. Nem precisava balançar. Não precisava nem ao menos dar-se ao luxo de lutar comigo, ou com nós. A brisa mínima de fôlego soprou em meu nariz um ventinho gélido, mas arrepiei. E pude sentir. E senti novamente. Fora fortemente alarmante. Um alarme tão assustador que o pequeno fôlego de vida me fez acordar. Pro mundo, pra vida, sair da cama, viver de novo, enxergar coisas novas, frescor novo, cores novas.
escrito com amor
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    6 Comentários

    1. QUE TEXTO. Eu também me sinto assim, sabe? Me sinto observadora e sinto que as pessoas tem muito medo disso, sabe? De pessoas que preferem a solidão, preferem observar o mundo e também sinto que no meio das pessoas, posso deixar a solidão de esvair.
      Muito profundo e bem escrito seu texto, adorei!
      Você tem talento!
      Beijos!
      Livros, Amor e Mais

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    2. Percebi que as pessoas não costumam sorrir para desconhecidos e muitas vezes o que é essencial: um simples sorriso
      big beijos

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    3. Belo texto!! Uma excelente reflexão da vida, das pessoas, do mundo que nos cerca!

      Beijinhos,
      Blog: DMulheres
      Instagram : @dmulheres

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    4. Que texto lindo! Eu amo ler esse tipo de coisas! Parabéns por trazer ao meu dia um momento de reflexão <3

      www.antesdaprimavera.com.br

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    5. Oie, confesso que quando vi o nome e a foto achei q era sobre o caso lá, mas lendo, vi q não era. Realmente, precisamos parar um pouco e pensar, pensar na gente, pensar na vida, olhar através da nossa pequena bolha.

      Beijinhos =*
      http://www.eraoutravez.com
      http://www.gleep.com.br/

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    6. Uau... adorei o seu texto, talvez possa passar no meu blog e dizer o que pensa dos meus!
      http://simplesmenteeuumcomummortal.blogspot.pt/

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